quarta-feira, 29 de julho de 2009

Leãozinho

 
Antes de você chegar
Na época de minha vida-na-falta
O mundo era menos colorido
Mais chato, monótono todavida...

Quando você saiu do meu ventre
Senti-me mãe-bruxa-fada-mulher
Senti-me luz, primeira vez na vida
E o mundo coloriu-se...

Hoje, na calma materna,
Olho bem pro meu leãozinho
Embalo você com os olhos, com a mãos
E sigo mais feliz.

Parabéns ao meu filhote Rafael, por seus luminosos seis anos de vida.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Salamandra


Mora em mim tudo que há em uma mulher
Todos os seus secretos caprichos
Faço de mim o que bem quero
Explodo, encubro
Me mordo.
Abro o portal para o dragão, enxoto da jaula, o leão
Atravesso o além e transponho galáxias, sóis e planos
Sou próxima aos elementais e sei onde habitam as feras
Vôo alto e rastejo com serpentes
Sou assim mesmo, mulher.
Aprendi a força das paixões,
com a sabedoria do fogo, dancei com salamandras.
Narcisa solitária, Helena esquecida.
Julieta amada, Bela Adormecida.
Todas essas habitam em mim.
E mais o ponto de conversão
Que detona e abranda o coração.

terça-feira, 14 de julho de 2009

No final



Pode ser que no final
nada haja para encantar
Pode ser que no final
nada falte a declarar
Pode ser que sim
Pode ser que não
Pode ser um: Quem sabe?
Só não pode ser igual
Só pode ser anormal
e por isso, tão imoral
e imortal.
Pode ser que nem tenha havido um final.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Elan


A solidão doía-lhe porque percorria todas as veias do seu corpo culminando no coração. E era por trás da cabeça, na nuca que sentia. Sentava na rede, deitava na rede...rolava...nada aliviava. A tensão era depositada nas costas, nos músculos, deixando-os tesos. Tinha urgência, e era assim desde o amanhecer e ainda emendava-se com o não-dia, impressões da ilusão de um ser questionador. Duvidava de si, duvidava se estaria acordado ou dormindo, vivo ou morto. Em seu mundo fabuloso o que tinha certeza é que desde cedo aprendera a questionar. E rodopiava em torno de questões existenciais como o que significava aquela coisa dentro de si que o fazia ter fome, mesmo após ter se fartado. Aquela coisa que apertava-lhe o peito quando só e quando iludia-se de que estava acompanhado. Uma vontade enorme de sair correndo, e, q uando o fazia, a vontade maior era de não permanecer onde chegara. Nada bastava para si. Ele queria sempre mais, sentia-se vazio e nada o preenchia. O desejo não tinha fim, era alcançá-lo, e lá vinha outro atormentá-lo. Acompanhava-o desde a mais tenra idade, idéias de felicidade plena e tranqüilidade. Idéias incompatíveis para ele, que mesmo estando em paz, sentia fervilhar em sua cabeça pensamentos. E eram pensamentos ambíguos, sempre. Tinha um desejo secreto... e esse era o mais fabuloso, o desejo de não crescer. Sentiu um ódio profundo quando viu crescer nele pêlos em toda parte do corpo franzino que transformava-se. E com o corpo, trasnformavam-se também seus desejos. Aquelas garotas românticas que tanto desprezava, agora eram vistas com outros olhos. Queria tocá-las, amá-las, beijá-las. E o que nele causava indignação, não era só o fato de ter que assumir responsabilidades, o que feria-o era estar livrando-se, mesmo sem querer, de sua inocência. Afastava-se do corpo e da inocência de sua criança interior. Não deram-lhe nem a chance de optar por essa mudança. Sua inocência era tão pura, que, quando criança, muitas vezes acreditava ser o protagonista de uma história importante e sua felicidade era tão plena que já chegara a imaginar que aquele exato momento era o final feliz dessa história. Se ele morresse naquele instante, não temeria, pois já tinha alcançado o nirvana. Hoje, tinha medo da morte. A medida que ia “adolescendo” já não tinha tanta certeza de que poderia, um dia alcançar o paraíso. A partir daí, começara a sentir-se sempre a uns dois ou três passos dele. Hoje, vislumbrava apenas uma longe fumaça no horizonte. Isso o feria. Não enxergava mais a luz no fim do túnel. Estava roubada sua inocência. Esse fato doía-lhe nas entranhas. Será que nunca mais atravessaria o portal?

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Ita Bira


Itabira não é para mim
Um mal tão grande assim...
Ai, ai, ai, ai
Não pode-se julgar um lugar por nossas próprias mazelas
Itabira acolheu-me profissionalmente
E, finalmente, deu-me um lar decente
Ai, ai, ai, ai
Tão perto do mestre Drummond...
Olho de frente, vejo casas simples
Olho ao lado, vejo um lago
( Rejeitos da Vale, sem vale...)
Ai, ai, ai ,ai
Mas olho sonhando um oásis
Talvez um lago natural, com seus encantos
Vejo de frente a Fazenda do Pontal
Nem sei se o mestre já viveu ali...
Se prossigo em frente, chego ao Memorial
Sem saber ao certo se foi feito
Para homenagear ou usar...
Ai, ai, ai ,ai
Mas o que importa?
Se são traços verdadeiros que habitam ali?
Uma velha máquina de escrever,
Onde também, como eu, tu deixastes impressos
Teu pesar, espanto e alegria
Acerca dessa vida,
Dura, férrea.
Não a deixarei, Itabira,
Dura Ita,
Não antes de redescobrir-me,
Não antes de estender minha mão cansada
Àqueles que dela precisam
Ai, ai, ai , ai
Escrevo em vão,
Tantas vezes sinto vontade de chorar
( Nem mesma eu sei, se de tristeza ou perplexidade)
O pranto vem, e,
Tanto mais forte,
Prossigo!
Ai, ai, ai, ai!
Itabira,
Acalanta-me.

sábado, 20 de junho de 2009

Clariciana VII


Primeiro haveria de entrar em contato com seus sentimentos outrora resguardados de si. Pensando na busca desenfreada para amenizar o sofrimento ( ainda pensava) notara que tivera que assassinar certos sentimentos que a faziam sentir-se rejeitada. O que concluíra não era lá grande coisa, além de deixá-la assustada. Concluíra que na verdade tais sentimentos não foram mortos mas sim adormecidos. E o sentimento mais forte era o da raiva. Raiva de pessoas que demonstraram indiferença para com ela. Raiva de pessoas que não acreditaram em seu potencial. Raiva de pessoas que a magoaram profundamente. As cicatrizes eram provas de que os sentimentos existiram. Não queria revirar velhos sentimentos embotados, mas aprendeu que só assim poderia livrar-se deles e enfim viver o momento presente. Sabia que além de não ser fácil isso iria modificar toda sua condição de ser o que havia ditado para si. Resolveu então que de agora em diante não haveria mais de guardar para si o que a incomodava. Não queria se acomodar com o que incomoda. Não mais. E percebeu que deveria sentir o que sentia e que não haveria de esconder seus sentimentos. Nem precisava mais voltar ao que passou, mas de agora em diante deveria resolver com quem a importunava. Deveria resolver com o que a importunava. Chega de noites insones tentando justificar suas falhas e as de quem a magoava. Entendeu que deveria gritar diante de qualquer porcaria que a obrigassem a engolir. Entendeu que essa deglutição obrigada revirava-lhe o estômago. Entendeu que a paz desejada só retornaria se fosse sincera consigo mesma, com seus verdadeiros sentimentos. Descobrira que a raiva é um poderoso sentimento que só escoa-se se for canalizado para fora de si e para que ela não se exprimisse intelectualmente foi preciso muita energia e isso afastou de si os fatos e eventos reais. Sempre camuflava o verdadeiro, o real. Geralmente até esquecia-se do motivo que a fizera ficar magoada e geralmente descontava sua raiva em quem estivesse mais perto. A triste constatação de que a experiência não gratificante foi engolida não parava por aí, ela vinha acompanhada da certeza de que não queria assumir a responsabilidade de ferir a pessoa que a machucou pois isso faria com que tivesse que lidar com a possível rejeição. Com isso foi confinando-se em sua esfera intelectual, em sua redoma mortífera. Sua raiva parecia-se com a de uma criança que quer revidar o soco, mas não sabe como. Esse sentimento então voltou-se contra si mesma. Além de tudo tinha muito medo de expressar sua raiva e perder o controle. Tanta defesa... para que? Sua cabeça pesava diante de tantas descobertas então precisava também descansar. O essencial já estava visível: extravasar a raiva no momento que a sentir é toda a diferença que há no mundo.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Clariciana VI


E o que ela era? Ela vivera a ilusão de ser livre. Mas isso antes de ser contaminada, poluída. Uma liberdade inalcançável quando engana-nos dizendo que é, só pode revelar-se mais tarde como uma sensação de que nunca foi. Essa verdadeira liberdade não prende-se a nós... não nesse corpo. Sentia que a alma fugidia gostaria de paralizar os momentos fugidios, dominá-los. Em vão. O tempo esvai-se e o dela passou rápido demais. Perdera chances. Perdera experiências porque havia também o medo de sofrer. Em nome da liberdade ludibriada, ela perdeu e perdeu-se. Como nunca se dava por vencida, precisava abrir novas experiências mas dessa vez sem prender-se a bordões ou frases feitas. Nada de recuperar tempo perdido porque sabia agora que isso não existe. Agora era encarar o mundo real. Era entrar em contato com os fatos, positivos ou não. Era abarcar em si a realidade sem demagogia ou deformação. E principalmente era aceitar. Correu os olhos pela última vez em seu passado e nas fotografias. Cabeça erguida, voltou a si quando a última estrela perdeu seu brilho e a aurora já anunciava as boas novas. Orgulhava-se de ser fênix.

Fragmentos


Ele sabia cada gosto vindo dela. Seu corpo cansado de batalhas só encontrava paz no regaço do dela. Por isso ele gostava de observar os detalhes e nuances de seu movimentar lento e companheiro. Quando podia, fingia olhar ao espelho, reforçando sua fama de narciso, mas na verdade furtava-se de cada olhar lançado sobre seu mundo. Suas coisinhas, souvenir barato, mas pleno dela. Era ela a quem ele enxergava para além do espelho. Sua alma. Era ela a quem ele queria possuir para que perpetuasse-se aquela cena, naquele momento em que fitava cada corzinha naquele armário encantado. Seguia-a pela casa para onde quer que fosse para não perder os lances secretos que eram executados em sua ausência. Corria os olhos sobre os móveis em busca de alguma pista do que estava acontecendo em sua vida, o que era fácil pois ela vivia de música e poesia. Sabia que cada passo dela era teleguiado por amor. E isso o fascinava. Quando ia-se, deixava para trás rastros seus, forma de se instalar. Ela gostava, ele sabia. Saía de casa regado do perfume escondido no fundo, para ocasiões especiais. Queria sempre marcar o corpo dela, que sôfrego, clamava pelo seu. Na grande parte das vezes esquivava-se diante do apelo urgente que teimava em dominar mas na verdade só voltaria a respirar ao sentir que ela ainda respirava e que sempre iria respirar. Suas tentativas alcançadas enfraqueciam-lhe o corpo mas não elevavam-lhe a alma. Queria mais, queria entrar dentro dela, ser com ela. Não sabia como agir. Quando aparecia a coragem, ele ia e a possuía. “Sem meras patologias”. Sem suplicar nem prometer. Gostava de deter o poder, exercer o controle. Sem perceber até, repetia os velhos hábitos de seus ancestrais ou do poder patriarcal. Sabia sem querer admitir que era mais um carneirinho. Mas o sabor doce e ilusório desse suposto poder era passageiro e ilógico. Podia enquanto podia, quando recebia longas cartas de amor, quando recebia emoções dela, que só devia pensar nele toda hora do dia. Podia enquanto a tinha em seus braços, podia quando, para livrar-se da rejeição evitava maior aproximação. Tudo deveria ser calculado para que, em momento algum, transparecesse o âmago de seu amor e o êxtase desfrutado. A fruta, quando bem mordida nos engole. Seus amigos orientavam-no de acordo com seus delírios. Ele delirava. Em seus devaneios sentia-se o próprio Rei recentemente coroado. Caminhava na rua como um pavão porque era muito amado. Secretamente amado pela mulher que ama.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Clariciana V


Pensou então naquelas pessoas com as quais perdera o contato. Assustou-se. O número de pessoas muito especiais era grande, nem talvez pela quantidade mas pela qualidade. Pessoas que outrora eram essenciais. Como recativá-las? Trazê-las para o lugar onde não devia ter deixado-as saírem... Perdia-se em longos devaneios acerca de como agir. E isso trazia-lhe tanta dor quanto a que derivava-se de sua descoberta. Resolveu então que não iria mais pensar mas até esse seu pensamento doía-lhe. Desde que virou adulta adulterou-se. Acostumou-se a viver na esfera intelectual e isso impedira-lhe de entrar em contato. Impedira-lhe de viver. Às vezes pensava em desistir ( continuava pensando...), mas em seguida retomava sua sina. Não queria viver do que desistisse. Não podia compreender-se ainda, mas aprofundava-se cada vez mais na busca. Não aceitava o que era para não se passar por tola e essa era a sua mais secreta tolice. Temia a expansão que experimentaria ao entrar em contato consigo mesma, medo do medo de ter medo. E o medo sempre mobiliza. Então deveria também expurgar seus medos. Mas isso significava voltar a ter autoestima...será que perderia amor se deixasse de ser vítima? O medo retornava... mas já sentia um progresso pois agora começava a entrar em contato com seus sentimentos verdadeiros. De repente caiu em si de que construira um templo e enfeitara-o muito mas nunca havia ingressado nele. Expulsou dele os que mais ama. A solução era tão simples e clara que chegou a duvidar dela. Teria que olhar para si, ir ao encontro de sua alma e pedir para que ela gritasse. O Templo interno deveria ser contemplado novamente. O Templo traria seus amigos de volta. O tempo traria.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Raio de sol


Noutro dia fui questionada se não sentia medo de expor meus sentimentos, daí pensei...eu não! Tenho medo é das pessoas que os esconde. Não deixo de sofrer por elas, amando-as ou não.Não tenho medo de ferida, eu as curo todas doando mais amor.

"Pela vida de desenganos amanhã retornarei com alegria outra vez"

Basta abrir as janelas da alma e inundá-la da mais pura luz do primeiro raio de sol.

domingo, 31 de maio de 2009

Clariciana IV


Fora buscar suas raízes outrora esquecidas em algum canto daquela velha cidade. Partículas espalhadas ao vento. O trabalho seria exaustivo, mas mãos à obra. Pra começo de conversa, limpar a velha poeira, sacudí-la, enxotá-la. Para fora da alma e do corpo a velha roupa esgarçada que não servia-lhe mais. Desde as palavras engolidas a força deglutidas sem querer até os pensamentos nebulosos que ardiam na mente. Poderia quem sabe passear, revisitar lugares importantes em sua vida, pedaços do quebra-cabeças, que, sem lógica hoje, havia sido montado meticulosamente no passado. E o que é passado, lá deve ficar. Aceitou que era um ser extremamente ansioso. Aceitar esse fato feria-lhe porque abria o contato com sua fragilidade emocional. Aceitar certas fraquezas fazia parte do processo que resolvera encarar. Fugir só aumentava a dor, devia lembrar-se. E havia ainda o paradoxo: quanto mais esperasse menos deveria esperar. E isso era bom. Bom também o cheiro do primeiro lugar que resolveu visitar. Deveria ter ido só, mas ainda havia a insegurança. As pessoas que fizeram-lhe companhia eram muito importantes. Caminhou horas, cabelo ao vento, rosto ao sol. Deixou que as lágrimas caíssem para que não tivessem mais que retornar. Não por esse motivo. Quando a chuva chegou deixou-se imergir. Como o contato era básico! Como não havia percebido ainda a importância de todos aqueles mínimos detalhes já esquecidos! A vida lhe impusera tanto resgate e tal fato trouxera tantos obstáculos mas a tempo percebera que o muro, como tantos outros poderia ser derrubado. Ansiava por vê-lo desmoronar. Percebia que a cada investida, a cada redescoberta, a vida voltava a pulsar em suas veias. De longe, pessoas observavam a leveza daquele ser que buscava a libertação. De longe, pessoas torciam por sua própria libertação. De longe, ela observava e seus olhos lacrimejavam e pediam por todos que precisavam voar. Já era noite quando a paz invadiu seu peito e pôde repousar seu corpo cansado na face clara da lua. Chorou em paz.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Clariciana III


E então como seria agora? O que faria a partir do momento da tomada de consciência? Havia momentos em que essa solidão buscada feria-lhe o peito, era como uma fisgada na alma. Escolhera para si um mundo a parte para livrar-se de todas as suas dores. O muro em torno de si era enorme e impenetrável. Qual tamanha foi a surpresa ao descobrir que ela também estava do lado de fora. Seus sentimentos bordados e engomados para servir-lhe melhor agora estavam descortinando-se e ela tentava desesperadamente desvencilhar-se deles. Sentia urgência em agir diferente, agir como deveria sempre ter sido. Perdera o contato com muitas pessoas que amava criando sua redoma. Redoma frágil e carente. Redoma facilmente desmoronável porque na ânsia de proteger-se esquecera de fortalecer os alicerces. Negar seus verdadeiros sentimentos para proteger-se, ao contrário do que esperava, acabou fazendo com que ela afastasse do que era. E agora perdia-se dentro de si afastada de seus verdadeiros valores. Ainda havia valores? Quais seriam os introjetados a partir de uma projeção? Precisava separá-los, separar o joio do trigo. Tudo isso atortoava-lhe profundamente. Pensou então que haveria de descobrir um modo que fizesse uni-la a sua criança interior, aquela que fizera adormecer quando sentiu-se adulta. Sim, sentia que ela estava lá esperando por si de braços abertos. Perdoar-se por seus erros talvez ajudasse nessa empreitada. Era a culpa o que lhe mobilizava e era dessa culpa que deveria livrar-se em primeiro lugar. Sempre teimosa fazia questão de escolher caminhos tortuosos. Não queria e não podia ouvir conselhos porque era a dona da verdade, da sua verdade fantasiosa. Sempre seguia pela estrada que a experiência alheia advertia-lhe de ser errada. Queria ver para crer e assim experienciava o caminho da dor. Deveria entregar-se ao que realmente era. Seguir seus instintos, sempre que ignorava-os tudo acabava muito mal. Mas a recusa estava ali agora diante de si e essa recusa causava-lhe repulsa. Curioso como as vezes tinha clareza e a lucidez diante do óbvio trancado a sete chaves no seu inconsciente. Tudo aquilo que construira para livrar-se da dor voltava agora para cobrar-lhe seus falsos e inúteis investimentos. Estava em uma fase de sua vida em que era encarar ou morrer sendo o que não é e isso causava-lhe náusea e vertigens. O peito apertado zombava das largas vestes que tentavam afrouxar-lhe o mal-estar. Tudo o que acontecia, noite e dia, vinham lembrar-lhe de que esta era a hora de virar a mesa. Não havia mais como adiar diante do constatado. E assim longos suspiros e pensamentos preparavam seu retorno.

domingo, 24 de maio de 2009

Claricianas galbeanas

Pouco antes do horizonte belo se assombrar desceu do céu uma aveanjo , iluminou minha almalama e disse: Luska Klestakov, você foi Julietalice mas no fundo, no fundo é Clarice.
Dedico essas maltraçadas linhas, uma pretensão de crônica que arrasta-se agora indefinidamente e que devo publicá-las quando não mais quiser calar-me... dedico à minha amada ( sempre amada) Regis Isapovitch. Claricina e Clariceana desde sempre.
(Ichi, agora mais Galbeanas que nunca. rs)

Clariciana II


Despiu-se e foi para a vida. Lêdo engano pensar que era especial, que era diferente. Sua alma de mulher enganava-lhe e era como se precisasse disso para seguir e então mentia para si mesma e essa era a pior mentira que já contara. Vivia cada dia como se fosse o último, dormir era perda de tempo, do tempo precioso que a levava para dentro de si. Os dias emendavam-se às noites e o espelho lhe mostrava fundas olheiras. Seu rosto já marcado pelo peso dos dias intermináveis, das noites insones, lhe era estranho muitas vezes. A vida enchia-se de sentido mas o corpo cobrava a alma. O que fazer desse dilema onde a resposta à charada era clara e ao mesmo tempo obscura? Devaneava sonhando sóis em meio ao gelo da neve que carregava dentro de si. Chorava e gargalhava diante de cada nova descoberta. O mundo parecia-lhe agora maior e sentia-se à sua altura quando conseguia entrar em contato. Temia o fim da tênue camada que muitas vezes se rompia. Era um mundo externo onde derramava seu pranto interno, seu pranto eterno. As luzes da cidade já não clareavam mais que a tocha que carregava dentro de si. Já poderia sentir sem precisar fugir. Já poderia crescer sem precisar partir-se. Já poderia dormir sem precisar iludir-se. Já poderia partir sem precisar ferir-se. Parecia-lhe que entrava para dentro de si descortinando um mar de possibilidades mas as escolhas já não lhe assustavam tanto quanto antes. Sentia orgulho de ser quem era e sentia ainda que era necessário doar-se sempre. Descobrira que perdera tempo demais tentando explicar que não precisava explicar nada pra ninguém. Perdera tempo moldando as máscaras que supostamente fariam com que fosse aprovada, amada, aceita. Perdera dias, meses, anos tentando ser igual. Não era. Nunca haveria de ser. Esse mundo não era dela, ela não habitava mas apenas habituava-se. Cansada de tanta volta para chegar ao mesmo lugar de sempre, muitas vezes estagnava-se. Mas tudo isso era passado pois a vida lá fora agora era vasta demais e não cabia dentro de si. Despiu-se e foi para a vida, a verdadeira vida.

sábado, 23 de maio de 2009

Clariciana I


Lá fora habitava a paz inventada, a paz dimensionada em outro ser. Tolices de uma mente utópica. Sempre quisera buscar fora o que tinha como lar o coração. Mais cômodo não? Ou seria porque foi treinada para possuir? Dúvidas subitamente povoavam seu ser, um ser fadigado de batalhas contra si. Sentia a inconstância vivida por querer sempre o que dela não dependia. Como era tortuoso e longíquo o caminho escolhido para fugir da dor de ter que crescer só. Se soubesse desde cedo que sempre que fugia ou ludibriava a dor ela novamente a esperaria na próxima esquina, descansaria em vez de debater-se em vão. Se soubesse desde cedo que a vida é feita para ser trilhada dentro de si, certamente teria muito mais a oferecer. Sua impressão inicial acerca do propósito da vida deveria acompanhá-la desde que pôde ser compreendida e no entanto quebrou a promessa que fizera a si mesma quando pura. A suposta maturidade juvenil e adulta passaram-lhe a perna. O deslumbramento de ser dona do próprio nariz roubou-lhe a inocência. Agora, teria que desdobrar-se se quisesse retornar ao ponto crucial onde perdeu-se de si. A descoberta banhava-lhe ora de esperança, ora do desespero pelo tempo perdido. Banhava-lhe de suor e lágrimas. Inundava-lhe de um sentimento de que se conseguisse respeitar seus instintos e, ao mesmo tempo domá-los teria o mundo. Ah, mas ardia-lhe na pele e nos órgãos uma dor incomensurável, a conhecida dor que muitas vezes impedia-lhe de mover-se, sabia que sem superá-la seu destino seria nadar e morrer na praia. Mas como desvencilhar-se de um passado recente e retornar àquele que sempre foi e será o ideal? Como despir-se de uma capa que já lhe moldava a alma? Como retirar a máscara imposta e aceita? Como mergulhar novamente no propósito original? Já não dormia mas descobrira que precisava do sono, mestre do repouso e da comunhão de sua alma com o Pai. Sua alma sempre soube o que deveria fazer mas tecera para si a armadilha dos maus hábitos. Então passara a boicotar sua paz interior. Agora pedia licença para dormir horas e dias, para dormir o sono de quem desperta para dentro de si. Enfim.

sábado, 9 de maio de 2009

Mamãe


Minha mãe é mãe.
A verdadeira mãe é aquela que diz um milhão de vezes que não vai mais fazer nada por você, tamanha sua decepção mas em seguida faz algo tão grande e nobre do qual você nem sabia que precisava.
Minha mãe é mãe.
Minha mãe me ensina tudo o que sei e devo saber. Minha mãe me ensina o que não se deve fazer para evitar o sofrimento, mesmo sabendo que teimo em não ouvi-la.
Minha mãe é mãe minha e do resto do mundo, seu instinto maternal é pleno.
Minha mãe é mãe e mulher, é profissional e dona de casa, é ainda irmã e companheira.
Minha mãe é toda cuidados.
Minha mãe carrega dentro de si a sabedoria e ao mesmo tempo a dúvida.
Minha mãe é sábia mas é pura.
Minha mãe lava a minha alma, tá lá sempre que preciso. Minha mãe me ensina a ser gente, me ensina a amar. Me ensina a amar porque seu amor é incondicional.
Minha mãe é minha, é dos meus irmãos e sobretudo é do meu filho. E é também de seus irmãos, dos seus sobrinhos e de seus amigos.
Minha mãe foi e sempre será mãe de sua mãe.
Minha mãe é mãe de quem precise.
Minha mãe enche meu coração de ternura. Minha mãe é toda sacrifício, renúncia e beleza.
Minha mãe, com seu olhar desnuda-me a alma e provoca o milagre da felicidade de ser compreendida sem que eu precise dizer uma palavra sequer.
Minha mãe vela meu sono desde que nasci. Minha mãe velará meu sono em outras moradas também.
Minha mãe é abrigo e nunca cansaço.
Minha mãe é tudo que uma verdadeira mãe deve ser.
Minha mãe é mãe.
Minha mãe é a Júlia.

terça-feira, 17 de março de 2009

Epitáfio




No alto, a lua.
Sob ela o firmamento.
Aqui embaixo, eu.
Olhos molham-se diante da questão:
Poderei eu, um dia, fundir-me ?
Imprimir talvez minhas marcas, meus sentidos.
Abraçar essa mãe e ser aconchegada em seu ventre.
Admirá-la com os olhos do coração.
O brilho da luz cegando a retina.
Amor, devoção, emoção.
Esse não é o começo do fim.
Esse é o retorno a si mesmo.
O retorno à inocência.

sábado, 7 de março de 2009

Introspeçcão


Introspecção
Sem tensão
Com tesão
Concentroapenasemsereumesma
Razão
Nessa confusão
Turbilhão
Vazão
Concentração
Emoção
Coração
Viagemparadentrodemim
Enfim.