domingo, 20 de setembro de 2009

Clariciana VIII

Caminhava distraída por entre viseiras e recolhía-se a conchas absurdas criadas. Saboreava a brisa que enchia seus pulmões, pulsações de uma vida repleta de cores e revelada em cada detalhe, sabores e odores flamejantes de um jardim secreto, torneado de flores e amores. Abençoada por visões sombrias e enigmas a serem decodificados. Mas a visão dantesca prosseguia envolta em nuvens esparsas e negras. Tudo prosseguia como mandava o figurino e ela cada vez mais sentia que era muito pequena diante de tudo. A vida revelava-lhe coisas das quais não gostava e mesmo assim seguia saboreando. Quando haveria de acordar? Será que um dia olharia tudo em volta e passaria a enxergar diferente, enxergar com os pés no chão? Sabia que nada sabia e esse fato também trazia dor. Sabia que para ser grande era preciso abdicar de sabores indigestos. Então deveria lutar, deixar de engolir alimentos nefastos. Mas mesmo assim prosseguia... um dia haveria de chegar o anjo branco que a levaria aos céus. Mas divagava: não estaria esse anjo dentro de si?

sábado, 19 de setembro de 2009

Luz da lua



Sou da noite
Borboleta noturna
Desgarrada da flor
Tecendo ilusões
Soluções inacabadas
Inesperadas
Luz da lua
Completamente nua
Exposta em raios
Dispersa no céu
Sem prumo
Rumo ao mar
Sem porto para ancorar
Sem fim

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Sinto


Do arco-íris do meu ser
Pinto e bordo, recordo...
Brindo a vida em sua taça
Leque de possibilidades, ardo...
A cada volta do sol
Dele visto-me desperta
E imersa em raios, explodo...
Envolta no manto da lua
Imensidão de brilho e luz, respiro...
Na escuridão de minhas noites
Chuvosas, saudosas, cheirosas
Brinco de voar, imagino...
Nas águas do meu viver
Sou uno e duplicidade
sinto, sinto, sinto...

 





quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Pequeno tratado sobre mim




Nasci de olhos e mãos abertas para esse mundo. Fui bem recebida, acolhida, amamentada e amada. Fui sim, a criança mais feliz que conheci. Brinquei até hoje e seguirei assim. Sempre gostei de ampla visão, por isso vivi subindo em telhados, muros, construções. Mas sobretudo trepei em árvores frondosas, onde fazia minhas casas com lençóis e bonecas. Mais ainda, saboreei frutas maravilhosas, lá de cima, só pra ser mais feliz. Caía, levantava, sacudia a poeira e sorria. Amava o fogo, cheguei a ser incendiária, desde tenra idade. Ateei fogo para dançar com salamandras. A água, ah, como sempre amei a água... Nela quase fui-me por duas vezes, uma no rio, outra no mar. Fiz do Santo Antônio meu berço, de cachoeiras minha paz e do mar minha recarga de energia. Brincava com pessoas para fazer a vida brilhar ainda mais. Muitas vezes, na mais absoluta inocência, fiz coisas desagradáveis, para arrancar risos, brilho esse que sempre prezei. Amei com transparência e sem resguardar-me. Sempre acreditei nas pessoas e no que elas podem trazer de melhor. Sofri desesperadamente em prol desse sonho. Sonhei que voava, dava saltos longínquos, flutuei. Plantei árvore, flores, feijão. Amei, amei, amei. Apaixonei-me por pessoas, versos, prosas, livros, músicas, ideais, profissões e mais, muito mais. Tive amor paterno, materno, fraterno, familiar, ágape, erótico, incondicional. Tive instinto maternal. Bebi, sorri, bebi, chorei, bebi, amei. Bebi vida. Bebi amor. Dancei, cantei muito. E canto essa vida até hoje e além.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Ausência



Cai a tarde impregnada de ausência
Saudade chega com seu manto a encobrir-me
O por do sol me consome em chamas
A lua cansou-se de emprestar-me consolo
Mas no fundo do peito
Naquele lar profundo da alma
Onde o tempo é infinito
E as horas não são notórias
A sensação que ora me alucina
E ora me veste-me de verde
E despe-me de cores ilusórias
Faz-me um bem
Sinto que sou maior
Sinto que a brisa desfalece-me
Mas infinitamente eleva-me
Sinto o pulsar do amor
E então essa ausência anuncia-me a vida
Ela agora faz parte de mim
Nessa máscara que não tiro nunca mais.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

De mim




De mim
Fiz-me vento
Enorme monumento
A se contemplar
De mim
Fiz-me ruínas
Engajando minha sina
E instituindo meu penar
De mim
Fiz-me tormentos
Vãos momentos
A me rodear
De mim,
Fiz-me cantar
Cantiga a me consolar
Para meus sonhos embalar.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Na varanda



Dependurei na minha varanda
Um bebedouro de beija-flor
Para trazer-me
Alegria
Esperança
Nova vida
Bem-viver
Dependurei na minha varanda
Um pedaço de vida
Vida simples
Benvinda
Para sempre
E nunca
Morrer

domingo, 23 de agosto de 2009

Saudade


A saudade
Despenca sobre minha alma

Desperta sentimentos inócuos
Rabisca meu viver
Revolve todo o meu ser
Em uma luta incessante
Tento conter o rompante

Defender-me
Inútil
Ela vem e invade
Me arde

Lançando-me ao infinito eterno
E, ironicamente,
Eleva-me
ao além...

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Sorriso



Sempre sorrio,
Muitas das vezes sorrio triste.
Típico sorrir daqueles que precisam...
Rio muito!
Acho graça, sobretudo de mim.
Criatura esperançosa.
Desajeitada da vida.
Vida sombria
E, com suas idiossincrasias,
Vida límpida por demais.
Transparente como as águas,
Mas poluída como as tais.
Nessas horas, em que divirto-me de mim mesma,
Sinto a leveza da ave que voa ao longe
E pousa porque a terra é seu lar.
Essas, às vezes,
Insistem em catar as migalhas no chão.
Quem dera eu, pudesse voar...

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Poesia





A poesia, de dia, me consome.
Em minhas batalhas noturnas,
a poesia deixa-me insone.
Bate na vidraça dos meus olhos
Mas sem pedir licença, adentra meu ser.
Corrompe-me,
Dilacera meu peito.
Quer extravasar-se de mim.
Os dedos procuram um instrumento,
O instinto lavra o documento.
Por um momento, livro-me do tormento.
Mas algo fica não-dito.
É que é difícil expressar o indizível,
O sentimento invisível.
A poesia é comigo um ser.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O caber


Descobri que habito em mim mesma, assim descortinei o mundo lá fora...
Todos os meus zelos foram inúteis.
Toda a minha graça encoberta, agora desperta, pulsa em mim.
Não caibo em mim de tanto amor.
Não caibo nesse mundo inverso, mas humildemente o revelo.
Sigo maravilhada diante de cada descoberta.
Sigo feliz.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Delírio




...Dei de delirar
Ando sonhando uns sonhos
Que eu sei que não vai dar
Ando arrastando asas
Pra qualquer pessoa pegar
Ando soltando umas pérolas
Para aos porcos dar
Ando numa preguiça só
Ai que vontade de deitar
Ando dum lado pro outro
Só pro tempo passar
Dei de delirar...

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Leãozinho

 
Antes de você chegar
Na época de minha vida-na-falta
O mundo era menos colorido
Mais chato, monótono todavida...

Quando você saiu do meu ventre
Senti-me mãe-bruxa-fada-mulher
Senti-me luz, primeira vez na vida
E o mundo coloriu-se...

Hoje, na calma materna,
Olho bem pro meu leãozinho
Embalo você com os olhos, com a mãos
E sigo mais feliz.

Parabéns ao meu filhote Rafael, por seus luminosos seis anos de vida.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Salamandra


Mora em mim tudo que há em uma mulher
Todos os seus secretos caprichos
Faço de mim o que bem quero
Explodo, encubro
Me mordo.
Abro o portal para o dragão, enxoto da jaula, o leão
Atravesso o além e transponho galáxias, sóis e planos
Sou próxima aos elementais e sei onde habitam as feras
Vôo alto e rastejo com serpentes
Sou assim mesmo, mulher.
Aprendi a força das paixões,
com a sabedoria do fogo, dancei com salamandras.
Narcisa solitária, Helena esquecida.
Julieta amada, Bela Adormecida.
Todas essas habitam em mim.
E mais o ponto de conversão
Que detona e abranda o coração.

terça-feira, 14 de julho de 2009

No final



Pode ser que no final
nada haja para encantar
Pode ser que no final
nada falte a declarar
Pode ser que sim
Pode ser que não
Pode ser um: Quem sabe?
Só não pode ser igual
Só pode ser anormal
e por isso, tão imoral
e imortal.
Pode ser que nem tenha havido um final.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Elan


A solidão doía-lhe porque percorria todas as veias do seu corpo culminando no coração. E era por trás da cabeça, na nuca que sentia. Sentava na rede, deitava na rede...rolava...nada aliviava. A tensão era depositada nas costas, nos músculos, deixando-os tesos. Tinha urgência, e era assim desde o amanhecer e ainda emendava-se com o não-dia, impressões da ilusão de um ser questionador. Duvidava de si, duvidava se estaria acordado ou dormindo, vivo ou morto. Em seu mundo fabuloso o que tinha certeza é que desde cedo aprendera a questionar. E rodopiava em torno de questões existenciais como o que significava aquela coisa dentro de si que o fazia ter fome, mesmo após ter se fartado. Aquela coisa que apertava-lhe o peito quando só e quando iludia-se de que estava acompanhado. Uma vontade enorme de sair correndo, e, q uando o fazia, a vontade maior era de não permanecer onde chegara. Nada bastava para si. Ele queria sempre mais, sentia-se vazio e nada o preenchia. O desejo não tinha fim, era alcançá-lo, e lá vinha outro atormentá-lo. Acompanhava-o desde a mais tenra idade, idéias de felicidade plena e tranqüilidade. Idéias incompatíveis para ele, que mesmo estando em paz, sentia fervilhar em sua cabeça pensamentos. E eram pensamentos ambíguos, sempre. Tinha um desejo secreto... e esse era o mais fabuloso, o desejo de não crescer. Sentiu um ódio profundo quando viu crescer nele pêlos em toda parte do corpo franzino que transformava-se. E com o corpo, trasnformavam-se também seus desejos. Aquelas garotas românticas que tanto desprezava, agora eram vistas com outros olhos. Queria tocá-las, amá-las, beijá-las. E o que nele causava indignação, não era só o fato de ter que assumir responsabilidades, o que feria-o era estar livrando-se, mesmo sem querer, de sua inocência. Afastava-se do corpo e da inocência de sua criança interior. Não deram-lhe nem a chance de optar por essa mudança. Sua inocência era tão pura, que, quando criança, muitas vezes acreditava ser o protagonista de uma história importante e sua felicidade era tão plena que já chegara a imaginar que aquele exato momento era o final feliz dessa história. Se ele morresse naquele instante, não temeria, pois já tinha alcançado o nirvana. Hoje, tinha medo da morte. A medida que ia “adolescendo” já não tinha tanta certeza de que poderia, um dia alcançar o paraíso. A partir daí, começara a sentir-se sempre a uns dois ou três passos dele. Hoje, vislumbrava apenas uma longe fumaça no horizonte. Isso o feria. Não enxergava mais a luz no fim do túnel. Estava roubada sua inocência. Esse fato doía-lhe nas entranhas. Será que nunca mais atravessaria o portal?

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Ita Bira


Itabira não é para mim
Um mal tão grande assim...
Ai, ai, ai, ai
Não pode-se julgar um lugar por nossas próprias mazelas
Itabira acolheu-me profissionalmente
E, finalmente, deu-me um lar decente
Ai, ai, ai, ai
Tão perto do mestre Drummond...
Olho de frente, vejo casas simples
Olho ao lado, vejo um lago
( Rejeitos da Vale, sem vale...)
Ai, ai, ai ,ai
Mas olho sonhando um oásis
Talvez um lago natural, com seus encantos
Vejo de frente a Fazenda do Pontal
Nem sei se o mestre já viveu ali...
Se prossigo em frente, chego ao Memorial
Sem saber ao certo se foi feito
Para homenagear ou usar...
Ai, ai, ai ,ai
Mas o que importa?
Se são traços verdadeiros que habitam ali?
Uma velha máquina de escrever,
Onde também, como eu, tu deixastes impressos
Teu pesar, espanto e alegria
Acerca dessa vida,
Dura, férrea.
Não a deixarei, Itabira,
Dura Ita,
Não antes de redescobrir-me,
Não antes de estender minha mão cansada
Àqueles que dela precisam
Ai, ai, ai , ai
Escrevo em vão,
Tantas vezes sinto vontade de chorar
( Nem mesma eu sei, se de tristeza ou perplexidade)
O pranto vem, e,
Tanto mais forte,
Prossigo!
Ai, ai, ai, ai!
Itabira,
Acalanta-me.